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A
estética é algo essencial quando tocamos no
assunto publicidade. É através da experiência
com o belo que o receptor irá do desejo propagandeado
seu próprio desejo. E por mais que esse último
seja individual, ele sempre tende para algo maior. Ou, nas
palavras de Jean Baudrillard:
" Cada desejo, seja o mais intimo, ainda visa ao universal
(...) nenhum desejo, nem mesmo o sexual, subsiste sem a mediação
de um imaginário coletivo. Talvez não possa
sequer emergir sem esse imaginário: seria inimaginável
que se pudesse amar uma mulher de que se estivesse certo de
que [ninguém] no mundo seria capaz de desejá-la?
(...) se é normal que vivamos nossos desejos em referencia
coletiva, a publicidade se dedica, todavia, a transformar
tal constância na dimensão sistemática
do desejo" (Jean Baudrillard, 1995, p. 279).
A
publicidade faz uso da estética para prover “moldes
de desejos” na sociedade, e como na maioria das vezes
o nosso inconsciente busca sempre maior, esses modelos acabam
se adequando à vida das pessoas. Com as mulheres o
fenômeno fica ainda mais evidenciado. A mídia
divulga uma “imagem padrão” de corpo, e
em seu discurso espalha a idéia de que aquele modelo
é o que deve ser seguido. A sistemática utilizada
é tão bem organizada que a beleza difundida
parece ser essencial à vida humana. Desta cadeia de
fatos, resulta então numa homogeneização
dos gostos que já existem ou os que possam vir a surgir,
ou seja, as massas humanas estão suscetíveis
à corrosão publicitária. Entretanto,
a cada limiar dos tempos, as respectivas características
estéticas de cada período entram em processo
de mudança, logo, podemos concluir que essa “massificação”
de arquétipos e estereótipos se reformula, se
re-ordena ao longo dos anos. O fato da constante mutabilidade
humana leva a publicidade a adequar-se ao contexto histórico
de determinada “fatia temporal*”.
Como exemplo desse fato, temos os ideais políticos
e estéticos dos jovens da década de 60. Eles
mostraram ao mundo um estilo próprio e diferente da
normalidade.
O âmbito estético da publicidade
Para tratarmos da estética dentro da dimensão
publicitária, é necessário que o conceito
de Estética seja revisitado. É preciso que seja
entendido que a experiência estética que um indivíduo
pode ter não está diretamente vinculada à
obra de arte, mas que “se encontra, de maneira difusa
e fragmentada, em todos os domínios da experiência
do mundo” (RODRIGUES, 1991, p. 31). Esse pensamento
mais geral em relação à experiência
estética aproxima-se da teoria desenvolvida por Hans
Robert Jauss, a teoria da Estética da Recepção.
Essa teoria coloca em primeiro plano a experiência estética
e não o objeto artístico.
A experiência estética como primeiro plano
Segundo Jauss, o foco de visibilidade se desloca do objeto
artístico para privilegiar a experiência estética
do indivíduo, ou seja, o indivíduo e não
o objeto representado é que está no centro das
atenções.
Para a Teoria da Recepção, o receptor é
de fundamental importância para o processo de desencadeamento
do entendimento, não pelo fato dela enfatizar apenas
esse último, mas, pelo fato de ser nele (no intérprete)
que a compreensão daquele objeto irá se realizar.
A recíproca desse raciocínio também é
real, o receptor se constitui com a obra a qual está
em contato. A construção de sentido nunca cessa,
o elemento humano está sempre fazendo “up grade”
dos seus conhecimentos, então fica difícil pensar
numa apatia desse mesmo sujeito perante uma situação
de reestruturação cultural que é estar
em contato físico ou mesmo mental com o objeto artístico.
Essa teoria é de extrema valia para o entendimento
da operação imagética**
que ocorre no âmbito publicitário, pois nessa
área, a informação só se transforma
quando é posta em contato com o seu intérprete.
Deve-se a esse fato as intermináveis experimentações
de novas embalagens, novos designs e novas composições
de produtos que as agências realizam com seus públicos-alvos
em consenso com seus clientes. Esses testes visam medir qual
o grau de aceitação ou rejeição
que aquele determinado segmento de pessoas possa vir a apresentar.
Jauss discerne que a obra de arte não é algo
que possa ser entendida por ela mesma, em outras palavras,
ela não se “auto - apreende”. A obra de
arte é um mapa, que convida o seu receptor a desvendá-la
através de sinais que a mesma oferece-o. Essas características
se assemelham com um leitor virtual que fornece indícios
antecipados para o leitor real final. A compreensão
adquirida depois do contato do receptor com a obra arte é
atualizada em cada indivíduo, sendo raramente repetitiva,
pois o cérebro humano é complexo suficiente
para buscar e produzir imagens mentais de diversas naturezas.
Esse cenário atual de profissionalização
da publicidade e dos meios de comunicação, tende
a nos fazer rever esse conceito que circunda a experiência
estética. Jauss, sem sombra de dúvidas, aponta
uma teoria que nos ajuda a entender como se dá, como
se desenrola essa nova “coreografia” que desempenham
os publicitários modernos.
Pode-se confirmar a estilização desses profissionais
no exemplo da campanha da Rexona, quando lançou o primeiro
desodorante desenvolvido especialmente para mulheres negras.
Antes mesmo de se pensar em embalagens, cheiro, textura, etc.,
há de se detectar as carências desse publico,
como elas agem, como se vestem, enfim, delimitar todas as
posições que circundam o publico a ser atingido.
Todas essas informações irão contribuir
para a elaboração da estética desse produto.
A fase anterior à fase de lançamento do produto
é o que vai garantir o sucesso ou não do mesmo.
A campanha foi lançada. E com este produto o processo
de observação de resultados não foi Diferente.
Primeiro foi mostrado o produto às pessoas as quais
ele era destinado, e, como sempre acontece, as mentes criadoras
da publicidade esperam qual para ver qual será o retorno
que o target fornecerá. No caso do Rexona Eboni, os
comentários foram favoráveis, pelo fato de neste
momento está iniciando-se no Brasil um processo de
inclusão dos negros no mercado de produtos de beleza
e de higienização. As indústrias estão
investindo pesado na produção desses artigos.
Entretanto, antes dessa publicitização do produto
e/ou serviço, podemos perceber que a teoria desenvolvida
por Jauss se faz essencial para o entendimento desse processo,
pois, ao calcular-se minuciosamente quais as possíveis
reações que as mulheres negras pudessem vir
a ter, evidencia-se que a mensagem por si só não
se “re-produz”, ou seja, é necessário
que receptor entre em contato com esta mensagem para que dessa
forma o sentido seja produzido.
* Pedaço de tempo que a ação propagandística
esta sendo efetuada, uma vez que o objeto que está
sendo exposto precisa criar no consumidor um reconhecimento.
Pouco tempo depois, podíamos nos deparar com essas
características estampadas nos anúncios publicitários
daquela época. Ao mesmo tempo em que a publicidade
defende e “impõe” um padrão estético,
ela também é influenciada por agentes exteriores
(a sociedade), pois as pessoas querem se reconhecer se identificar
com o material que esta sendo difundido pela mídia.
A realidade idealizada pelos criadores e diretores de arte,
precisa em algum momento tocar o subconsciente do consumidor,
para que então aquela situação percebida
torne-se parte do cotidiano do público.
**
Em publicidade esta operação se dá nos
jogos de simbioses de imagens, que juntas produzem um sentido
diferenciado daquele que elas teriam se estivessem divagando
pelo universo. Essas simbioses porem, não são
feitas de qualquer forma, muitos estudos e pesquisas são
realizados para que o fruto dessa fundição seja
o “delírio” do consumidor.
Por:
Dalyne Lucena - Publicidade
e Propaganda, 7º Sem-Mat
***
Este texto faz parte do projeto experimental a Mulher X Publicidade.
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