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experiência é, como disse lindamente Pedro Nava,
um carro com os faróis voltados para trás. Este
texto é uma mea-culpa.
Nesses
últimos 40 anos, cobertos com competência pelo
caderno, nós, publicitários, construímos
coisas grandes e belas. Juntos fizemos o país gostar
de propaganda.
E
fizemos a propaganda brasileira ser admirada no mundo. O povo
brasileiro gosta de propaganda. E gosta da nossa propaganda.
Tornamos os publicitários conhecidos e respeitados.
Participantes da vida do país. Famosos além
do muro da propaganda.
Entretanto,
de alguns anos para cá, deixamos alguns mauricinhos,
em seus ternos engravatados, tentarem tornar suas verdades
cinzas em verdades nossas.
E
tentam tornar essas meias-verdades em verdades absolutas.
Lero-lero do tipo: “Só no Brasil o publicitário
tem a importância que tem”. Mentira. Lord Saatchi
é publicitário. Virou Lord, tem uma das maiores
coleções de arte do Reino Unido. E é
parte atuante do stablishment inglês.
Assim
como Sir Martin Sarell é hoje. E como Sir David Ogilvy
foi no passado. Assim como Jacques Seguela tem participação
atuante na política francesa. E James Carville é
figura conhecidíssima nos Estados Unidos.
Todos
com visibilidade, programa de TV, livro. Dizendo coisas geniais
ou pisando no tomate como todos nós mortais.
Mas,
de tanto ouvir essas nulidades repetindo que nossas gravatas
são extravagantes, que aparecemos demais, que somos
barbies, estamos jogando na retranca.
E,
com medo disso, ao preenchermos a ficha do hotel, nos denominamos
empresários. Falamos agora todos iguais. Nos vestimos
todos agora tom sobre tom. As nossas respostas são
todas respostas de miss.
Está
na hora de esse mercado ser um pouco mais ele mesmo. Estão
faltando frescura, frivolidade, charme. É preciso ter
pertinência, consistência, responsabilidade, mas
não é preciso ser tão chato.
Propaganda
é uma atividade de artista. É uma indústria
séria como o cinema. Mas é também uma
arte.
É
uma arte cara, feita por pessoas especiais.
Meio
malucas. Não são patos. São cisnes.
Que
tiram idéias grandes de coisas banais. Que tornam um
produto uma marca. E que fazem fortuna para os outros. E que
têm de ser, portanto, reconhecidos, bem pagos e ouvidos
nessa sociedade como Isay Weinsfeld, os Irmãos Campana
ou Fernando Meirelles.
E,
se não são especiais, se não são
interessantes, se não têm idéias inusitadas,
não são publicitários. E, portanto, não
merecem as regalias, a visibilidade e nem serem ouvidos.
Mas
não podemos deixar os comuns tentarem nos envergonhar
de termos nascidos diferentes.
Não
seja um publicitário enrustido, amigo. Vamos lá.
Vamos sair do armário. Sim, mãe. Sim, pai. Eu
sou publicitário. Carrego dentro de mim essa gravata
com estampa. Sim, eu tenho esse ego que dizem que é
de publicitário (mas que aparece também em médicos,
políticos, engenheiros, arquitetos, atores de cinema).
E,
apesar dessa meia vermelha, eu pago meus impostos e faço
o país crescer.Gero empregos, fabrico riquezas e divisas.
Sim,
eu sou publicitário. Gosto de coisas com design, amo
trocadilhos e frases de efeito. Mas os monges também
têm seus jargões e seus tiques.
E,
pelo fato de ser um cisne, não vou passar a vida me
fantasiando de pato. Só para que os patos de nascença
se sintam melhor. É claro que um texto como esse é
um prato cheio para o rancor, para a lição de
moral. Para os torquemadas que usam a falsa humildade para
lançarem pensamentos diferentes na fogueira.
Mas vamos lá, meus amigos. Chega de bancarmos os empresários.
De tentarmos ser low-profile que nem banqueiros. Que os banqueiros
sejam banqueiros, que os empreiteiros sejam empreiteiros e
que nós sejamos nós. Artífices da palavra,
espíritas de idéias.
E,
por sermos assim diferentes, a Rainha nos batizará
como Lords. O povo cantará nossas músicas e
contará nossos filmes.
Sejam
os publicitários como o nosso companheiro, o jornalista
Roberto Marinho, foi sempre: jornalista Roberto Marinho. E,
sendo jornalista e apaixonado por seu ofício, construiu
um império.
Não,
esse mercado não pode ser tomado por mauricinhos que
não fazem anúncios. Só fazem lobby. Que
ficam puxando o saco de empresários e imitando esses
empresários como replicantes.
Nós
somos o inconformismo. A voz da New Age. Os filhos de Aquários.
Nós somos, perante a indústria e o comércio,
a voz dos jovens, do povo. Nós somos o novo, o imprevisível,
o diferente.
Perante
o banqueiro sisudo, o empresário que vive preso no
seu escritório, no seu universo, no seu mundo, nós
somos a voz das bichas e dos chapados.
Nós
somos o ponto de interrogação nas organizações.
A contramão. A provocação.
E,
se deixarmos de ser isso, nosso espaço nessa sociedade
será nenhum. Como aqueles que tendo nascido cinzas,
chatos e mauricinhos querem. Que fiquemos todos iguais para
sermos patos como eles.
Nizan
Guanaes
Fonte:
www.africa.com.br
texto de Nizan, aos 40 anos do Propaganda & Marketing
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